Nós não somos consumidores
Publicado em 7.07.2010 às 13:16 na seção Dinheiro
Existe uma tendência, mesmo entre os que estão querendo comprar menos coisas, de chamar todo mundo de “consumidores”. A empresa precisa satisfazer seus consumidores. Nós consumidores precisamos escolher com nosso dinheiro. Nós precisamos de cães de guarda para proteger consumidores. Consumidores estão comprando menos durante a recessão.
Vamos parar com isso. Nós não somos consumidores.
Nós somos pessoas.
Quando permitimos que nos rotulem com esses termos corporativos, somos inseridos nesta forma consumista de pensar. Nós permitimos que o debate tenha se formado em torno do ato de comprar: devemos comprar orgânico ou local? Como podemos proteger os consumidores? Quais os direitos dos consumidores? Qual a melhor maneira de gastar nosso dinheiro em produtos? Como podemos ser consumidores safos? Como podemos causar mudanças na sociedade fazendo escolhas éticas ou conscientes de compras?
E quanto a questão sobre se devemos comprar ou não? Essa é jogada fora pela janela, porque já está pre-assumida no termo: nós somos consumidores. Então, é claro que compramos. É só uma questão de como, quanto, onde, de quem e com que frequência.
Mas se nós pararmos de pensar em nós mesmos como consumidores, e passarmos a nos chamar de pessoas, então reabrimos a questão. Antes de tudo, nós deveríamos mesmo comprar? É possível levar uma vida sem comprar?
Nós temos falado um pouco sobre isso na sociedade, reimaginada… que nós podemos plantar nossa própria comida, fazer e trocar tudo o que precisamos. É possível – é claro que é possível! Seres humanos (não consumidores) fizeram isso por centenas de milhares de anos, e por pelo menos 10 mil anos em uma sociedade civilizada: nós vivemos e trabalhamos e brincamos e amamos, sem comprar. Fizemos isso em tribos, claro, mas também em sociedades maiores que não eram baseadas em torno da unidade básica empresa -> consumidor.
Eu não estou advogando um retorno ao tribalismo. Só estou dizendo que precisamos mudar o debate. Precisamos parar de nos chamar consumidores. Precisamos abrir nossas mentes, para que um caminho diferente se torne possível.
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