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Vipassana: aprenda a ver as coisas como elas realmente são

Publicado em 14.07.2009 às 8:46 na seção Comportamento

A famosa frase de Jean-Paul Sartre – “O inferno são os outros” – não poderia estar mais certa e errada ao mesmo tempo. Nossa cultura incute em nossas mentes que o sofrimento que experimentamos no dia-a-dia é fruto de eventos externos. É o emprego que não está legal, é o parceiro que não satisfaz, é o dinheiro que não é suficiente etc.

O detalhe é que o verdadeiro sofrimento não vem desses fatores externos e sim da nossa reação a eles. Se não reagirmos, não vai importar o que os outros façam ou o que aconteça no mundo. Estaremos em paz conosco mesmos. O inferno ou a paz depende de nós, não dos outros.

Mas existe alguma maneira de descondicionar a mente para que paremos de reagir cegamente? Sim. Existe uma antiquíssima técnica de meditação indiana redescoberta há mais de 2.500 anos pelo princípe Sidarta Gotama, o Buda histórico. Essa técnica chama-se Vipassana, que em pali significa “ver as coisas como elas realmente são”.

Os cursos

O objetivo da meditação Vipassana é a erradicação do sofrimento interno, que vem da natureza insatisfatória da vida. Tal erradicação é possível através da auto-observação.

Vipassana tem sido ensinada em diversos pontos do mundo em cursos gratuitos de 10 dias. Nesse período, os alunos comprometem-se a não falar, não matar, não roubar, não mentir, não ingerir tóxicos e não fazer sexo. Durante 10 dias, tudo o que eles fazem é sentar com a coluna ereta e meditar seguindo uma técnica específica.

Nos três primeiros dias, eles apenas focam a mente em um único ponto: a respiração. Pode parecer fácil, mas se você experimentar sentar com a coluna ereta e fechar os olhos com o propósito de manter a mente focada em um único ponto (nesse caso, a respiração) é muito provável que não consiga passar nem um minuto completo sem que a mente divague para outro ponto. Então, é você que comanda sua mente ou ela que comanda você?

No curso os alunos ficam esses três dias fazendo isso. Focam na respiração. A mente se distrai e viaja para outros pensamentos. Então eles gentilmente trazem-na de volta para a respiração. Somente no quarto dia é que eles estão prontos para aprender Vipassana em si.

A técnica

Vipassana ensina a observar e enfrentar as questões que surgem na mente. Quando uma impureza surge na cabeça, os praticantes de Vipassana observam-na com distanciamento até que ela passe. O objetivo é que nós comandemos a mente e não que sejamos comandados por ela.

O que os idealizadores dessa técnica descobriram é que quando uma impureza surge na mente, duas coisas começam a acontecer simultaneamente no nível físico. Uma é que a respiração perde o seu ritmo normal. Outra é que, num nível mais sutil, uma reação bioquímica começa no corpo, resultando numa sensação. Se aprendermos a observar a respiração e as sensações, saberemos quando está surgindo uma impureza na mente. E aí poderemos observá-la passar sem que nos afete.

Isso oferece uma solução prática. Uma pessoa comum não pode observar impurezas abstratas da mente — medo, raiva ou paixão abstratos. Mas, com a prática e treinamento adequados, é muito fácil observar a respiração e as sensações corporais, ambas diretamente relacionadas às impurezas mentais.

A respiração e as sensações vão ajudar de duas formas. Primeiramente serão como que secretários particulares. Assim que uma negatividade surgir na mente, a respiração perderá sua normalidade; começará a gritar: “olhe, alguma coisa deu errado!”. Eu não posso repreender minha respiração; tenho que aceitar esse aviso. Da mesma forma, as sensações vão dizer que algo vai mal. Então, sendo avisados, podemos começar a observar a respiração e as sensações e, muito rapidamente, veremos que a negatividade cessa.

Esse fenômeno físico-mental é como duas faces de uma moeda. Em uma das faces, estão os pensamentos e as emoções surgindo na mente; na outra, estão a respiração e as sensações corporais. Quaisquer pensamentos ou emoções, quaisquer impurezas mentais que surjam, manifestam-se na respiração e nas sensações daquele momento. Logo, observando a respiração ou as sensações, estamos, de fato, observando as impurezas mentais. Em vez de fugirmos do problema, estamos encarando a realidade como ela é. Como resultado, veremos que essas impurezas perdem sua força; não mais nos dominam como no passado. Se persistirmos, elas finalmente desaparecerão completamente e começaremos a viver uma vida pacífica e feliz, uma vida cada vez mais livre das negatividades.

Dessa forma, essa técnica de auto-observação mostra-nos a realidade em seus dois aspectos: interior e exterior. Previamente olhávamos apenas para fora, perdendo a verdade interior. Procurávamos sempre fora de nós a causa de nossa infelicidade; sempre culpávamos e tentávamos modificar a realidade externa. Ignorantes da realidade interior, nunca entendemos que a causa do sofrimento está dentro de nós, em nossas reações cegas às sensações boas e ruins.

Agora, com o treinamento, podemos ver o outro lado da moeda. Podemos tomar consciência da respiração e também do que acontece dentro de nós. O quer que seja, respiração ou sensação, aprendemos a simplesmente observá-la sem perder o equilíbrio mental. Paramos de reagir e de multiplicar nosso sofrimento. Ao contrário, deixamos as impurezas se manifestarem e desaparecerem.

Quanto mais praticamos essa técnica, mais rapidamente as negatividades desaparecerão. Pouco a pouco, a mente tornar-se-á livre de impurezas, tornar-se-á pura. Uma mente pura é sempre cheia de amor — amor desinteressado por todos os outros; cheia de compaixão pelas falhas e sofrimentos dos outros; cheia de alegria pelo seu sucesso e felicidade; cheia de equanimidade diante de qualquer situação.

Quando alguém atinge esse estágio, todo o seu padrão de vida muda. Não é mais possível fazer ou falar qualquer coisa que perturbe a paz e a alegria dos outros. Em vez disso, uma mente equilibrada não apenas torna-se pacífica, mas a atmosfera que cerca uma tal pessoa também se tornará permeada de paz e harmonia, e isso influenciará e ajudará a outros também.

Esse trecho final é do próprio site em português dos cursos gratuitos de Vipassana. Se você acha que é uma opinião muito parcial, leia também essa reportagem da revista Época em que uma jornalista experimentou um dos cursos de 10 dias e tire suas próprias conclusões.

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